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Insert Coin: Uma tentativa de reviver ou uma tentativa de preservar?

Discussão · Português · 2 posts

23 de out. de 2026, 16:36#30
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Prezados,

Iniciar uma conversa é sempre difícil. Teorizar, escrever, reescrever, errar e acertar. Durante os anos 1990 e 2000, boa parte do mundo foi inundada com os lançamentos da Sony Playstation, do MasterSystem, Mega drive, NeoGeo, nintendo e afins. Quantos de nós investimos o suado troco de padaria em algumas fichas para tentarmos matar Rugal? Quantos de nós tentávamos salvar a princesa do Castelo e no fim descobrir que ela está em outro castelo?
Nosso tempo era dividido entre escola e lazer. Crianças, pré-adolescentes, adolescentes e jovens adultos tinham essa prerrogativa.
Ano 2026. Crescemos e mal temos tempo sequer para comer. E nos vem a vontade de jogar um Super Mario, um Sonic 2 ou até mesmo um Marvel Vs Capcom, que sempre gostei. Mas pergunto-vos: O que queremos emular, os jogos ou os sentimentos? Arthur Schopenhauer, filósofo alemão do século XIX, em sua obra O Mundo como vontade e representação (Schopenhauer, 2007) disserta sobre a necessidade intrínseca da existência do homem que se encontra conectada à dois pilares: A ânsia de ter e o tédio de possuir. Podemos descrever, de acordo com Schopenhauer, que somos movidos pelo sentimento de falta mas quando temos, conseguimos não somente o que queremos, mas o tédio e entender isso é entender que devemos buscar sempre um horizonte inatingível. Mas como essa filosofia se conecta aos jogos antigos?
Falo por mim quando digo que estou em busca de um fliperama de bancada. Na busca incessante de reviver o que eu pouco tinha na minha infância. Talvez essa busca não esteja relacionada apenas aos jogos, mas às sensações que eles despertavam. Freud, em seu Projeto para uma psicologia científica (1895), desenvolve uma reflexão sobre a experiência de satisfação e as marcas psíquicas que ela deixa. Podemos utilizar essa ideia para pensar como determinadas experiências permanecem associadas a uma satisfação anterior. Talvez não estejamos tentando recuperar somente o jogo, mas também aquilo que sentíamos quando jogávamos: a expectativa, a descoberta, a liberdade e a satisfação de finalmente vencer uma fase. Entretanto, existe uma diferença entre lembrar uma experiência e conseguir reproduzi-la. Podemos reencontrar o jogo, mas não necessariamente a mesma sensação. O tempo passou, nossas circunstâncias mudaram e aquilo que antes fazia parte de nossa rotina agora ocupa um espaço diferente em nossas vidas.

EmuELEC, R36S, RetroArch, EmuSTATION, Batocera e toda a imensa gama de emuladores e retro-compatíveis disponibilizados me levam à essa busca. Tentar reviver esse tempo é impossível e disso tenho ciência. Essa impossibilidade de recuperar integralmente o passado também pode ser pensada a partir de Freud. Em Recordar, repetir e elaborar (1914), o autor discute como aquilo que não é recordado pode aparecer na forma de repetição. Não pretendo afirmar que jogar novamente seja uma manifestação de compulsão à repetição, mas a reflexão freudiana permite pensar em como nossas experiências anteriores continuam participando de nossas ações presentes. (Estou com compulsão no Metal Slug e shot'em up)
Talvez eu não consiga recuperar exatamente a sensação de jogar durante a infância, mas posso reencontrar os jogos que fizeram parte daquele período. A experiência atual não será a mesma, mas carrega consigo elementos da experiência anterior. O passado não retorna integralmente. Ele encontra novas formas de aparecer no presente. Tentar aproveitar, também se torna uma tarefa quase hercúlea. O que fazer para fazer com que toda essa busca se torne útil? Atualmente tenho utilizado um sistema baseado no RetroArch no meu celular android. Esse sistema emula com execução satisfatória os jogos que preciso. Tenho zerado a franquia Metal Slug, do NeoGeo, durante as idas para o trabalho no transporte público (algo que fez até mudar minha rota para ganhar alguns minutos a mais) e minha próxima meta é voltar a zerar Chrono Trigger e Chrono Cross, meus xodós. E é aqui que encontro uma nova função para a nostalgia. Não jogo mais no pós-escola, aos finais de semana e afins e com a mudança de cenário, mudança de rotina e mudança de núcleo familiar tudo mudou. Não assopro mais nos cartuchos ou fico limpando o disco do CD para jogar Winning Eleven. Faço uma atualização dos jogos e os utilizo como uma referência do passado, mas experimentando no presente.
Talvez a nostalgia não seja apenas uma tentativa de recuperar o passado, mas também uma maneira de estabelecer uma relação com ele.
E como diria Visão, luto é o amor que perdura. Jogar novamente é lembrar do amor que perdurou estes anos. E para demonstrar esse amor eu mudei de horizonte. Meu horizonte agora é buscar zerar todos aqueles jogos que nunca consegui durante minha infância. Minha meta agora é matar Rugal e partir para uma nova meta. Não deixarei o tédio de zerar acabar com minha ânsia de começar um jogo novo.
Schopenhauer nos ajuda a pensar sobre a busca incessante por satisfação. Freud nos permite refletir sobre as marcas que as experiências anteriores deixam em nossa vida. Mas, entre o desejo de recuperar o passado e a possibilidade de viver o presente, existe algo que ainda posso fazer: jogar.

Vou atualizando aqui meus jogos zerados na ida ao trabalho.
Começando com Metal Slug, Metal Slug 2, Metal Slug 3, Metal Slug 4, Metal Slug 5, Metal Slug X e Metal Slug Super Vehicles.

Um até mais e obrigado pelos peixes.

REFERÊNCIAS (UFF) BIBLIOGRÁFICAS
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. Tradução de M. F. Sá Correia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2007.
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: FREUD, Sigmund. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”): artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 193-209.
MINHA CABEÇA, Vozes.

Hype 1
23 de out. de 2026, 18:05#35

Que texto maravilhoso pra inaugurar o Overwrite.

Faço das suas palavras as minhas em diversos aspectos. Parabéns.

O tanto de amor que nós tivemos pela indústria todos esses anos tem sido recompensado em forma de palestras jogáveis, como se não soubéssemos de nada sobre nada e precisássemos ser iluminados pelos grandes criadores da indústria de games.

A parte boa é que se em algum momento a Industria falir, a continuar a seguir a rota que parece insistir em seguir, ainda teremos uma vida inteira de backlog a ser jogado.

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